Lira Paulistana

Vamos a mais uma história que fez parte de minha adolescência e que por coincidência  a Maga Lieri cantou neste espaço que foi primordial para os artistas independentes nos anos 80. Entre 1979 e 1986, funcionou na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, São Paulo, o Teatro Lira Paulistana -nome tirado da obra homônima de Mário de Andrade, de 1946. Fundado por Wilson Souto Jr., o Gordo, o Lira passou de palco de produções alternativas – começou como teatro – a centro irradiador do que viria a se chamar Vanguarda Paulista. Durante esse período o Gordo foi aceitando sócios. O pioneiro, Chico Pardal, que ainda colabora com o Gordo, hoje dono da gravadora Atração; Plínio Chaves, já falecido, deflagrador da carreira de Ná Ozzetti; o jornalista Fernando Alexandre G. da Silva, responsável pelo Lira Paulistana, a primeira publicação a tentar emular o Time Out inglês e o Pariscope francês – as revistas semanais ainda tentam; Ribamar de Castro que, entre outros feitos, transformou o logotipo do teatro, com o perfil de São Paulo, em uma linha de neón. E fez história. Há uma década radicado na Espanha, Riba está em São Paulo para colocar o Lira “em seu devido lugar”. Detentor de um vastíssimo material sobre o teatro, Ribamar pensava em escrever a respeito do assunto quando a idéia de fazer um documentário o atropelou. Desde outubro passado, Riba percorre a cidade acompanhado pelos profissionais da Lente Viva Filmes, Fabriketta de Cinema e DCine, gravando depoimentos, buscando locais originais, desfazendo lendas e criando outras. O resultado chegou às telas no segundo semestre de 2009 e já é considerado uma revolução. O motivo é simples. Embora quase três décadas tenham se passado, não há um dia que alguma figura que pisou no palco do Lira Paulista não esteja se apresentando em algum lugar da cidade. Mesmo assim o leitor não encontra nenhuma informação sobre o Lira reunindo teatro, movimento, momento histórico, nada, seja em enciclopédias de música, publicações, o que for. Para completar, há claros indícios de que a figura de Itamar Assumpção, cantor e compositor falecido em 2003 a quem o filme é dedicado, torne-se hype nos próximos meses. Além do filme do Riba, da Caixa Preta, com sua discografia a ser lançada pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) e o DVD pelo Itaú Cultural, Itamar tornou-se a figura mais escolhida para tema de TCCs (trabalhos de conclusão de curso), teses de mestrado, doutorado, monografias e matérias de revistas. Ouvidos atentos. Ribamar de Castro é uma daquelas figuras que só a Vila Madalena do final da ditadura podia ter produzido. Ele praticamente definiu o conceito de agitador cultural. Um dos seus primeiros feitos foi projetar filmes de um apartamento nos prédios vizinhos, com as caixas de som nas janelas, para que todos pudessem assistir enquanto bebericavam. Baixinho, barba, óculos e sempre encimado por um quepe da Legião Estrangeira, ele embarcou na aventura do Teatro Lira Paulistana já definindo seu apelo visual, e sua experiência em Barcelona só o aproximou ainda mais da Benedito Calixto. Para começo de conversa, a denominação Vanguarda Paulista foi criada pela imprensa baseada no fato de Arrigo Barnabé trazer a clara e crocodilesca influência dos compositores de vanguarda do princípio do século passado. Logo, tudo o que não era MPB-bossa incluído na música pós-tropicalista de Itamar – os grupos Rumo, Premê e Língua de Trapo, no repertório de cantoras como Cida Moreira e Eliete Negreiros, de regionalistas como Passoca ou o grupo Paranga, das formações de jazz em torno do pianista Lelo Nazário -, tudo foi resumido como… vanguarda. Na verdade o assunto que dava liga a todas essas pessoas era música independente. Independente das gravadoras. Como Antonio Adolfo e seu disco sintomaticamente batizado Feito em Casa. Fora isso, aquelas pessoas não tinham nada em comum – como observou o jornalista e pesquisador Zuza Homem de Mello, “os pintores de Paris da época de Picasso também não tinham” – exceto o Lira e a proximidade da Universidade de São Paulo (USP). Mas como “toda regra etc.”, Arrigo nunca tocou no Lira e Itamar nunca estudou na USP. Mas isso é assunto para mais de metro. O fato é que o Lira já existia há um ano quando o Gordo e sua turma descobriram Itamar em um festival da Madalena. Logo Arrigo lançaria o primeiro disco independente dessa safra. Itamar passou a se apresentar no Lira e os responsáveis descobriram que se quisessem lançar um disco teriam de fundar um selo também. Assim surgiu Beleléu, Leléu, Eu, de Itamar, e o selo Lira Paulistana, hoje ambos lendários. Rumo, Premê e Língua, entre tantos outros, fizeram daquele porão minúsculo – cabiam 150 pessoas se tanto – seu lar permanente, criando a mística do Lira. Na verdade se houve grupo que surgiu no Lira, seria da geração seguinte, do chamado BRock. Os membros dos Titãs, Ira! e Ultraje a Rigor, por exemplo, eram meninos que ensaiavam à tarde no teatro desocupado. Mais assunto. Riba está entrevistando todo mundo. Os “meninos” também. E tentando desviar o assunto de música exclusivamente. Tanto que o nome da sociedade era Centro de Promoções Artísticas Lira Paulistana. As coisas aconteciam. Como lembra Laerte Fernandes de Oliveira em seu livro Em um Porão Em São Paulo (Anna Blume – 2002), quando O Homem Que Virou Suco, de João Batista de Andrade, foi premiado em Moscou havia desaparecido das telas no Brasil, sendo exibido apenas no Lira. O mural ao lado do teatro era ocupado por artistas plásticos que se revezavam a cada dois meses. A Edições Lira Paulistana tem como primeiro volume Minorias, do estreante Glauco, o cartunista. O jornal teve 12 edições e os shows do porão ganharam as praças, com patrocínio da US Top, e o País, batizados Boca no Trombone. Muita água rolou. E Ribamar está aí para filtrar e contar.

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