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Itamar Assumpção e a banda Isca de Polícia, Premê, Grupo Rumo,  Paulo Barnabé, Luiz Tatit, Ná Ozetti, Fernando Meirelles, Marcelo  Tas, Passoca, Roger Moreira, Eduardo Gudin, Wandi Doratiotto,  Cida Moreira, Lanny Gordin, Nelson Ayres, Amilson Godoy, Kid  Vinil, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, Alzira Espíndola, Alice Ruiz, Bia  Aydar, Elias Andreatto, Paulo Le Petit, Hélio Ziskind…

Sete anos de intensa atividade artística e intelectual passadas a limpo  ao longo de 97 minutos do documentário musical Lira Paulistana e  a Vanguarda Paulista. A tarefa parece difícil, mas o diretor Riba de  Castro – um dos sócios do Lira, pequeno espaço cultural que agitou  a vida da cidade de São Paulo entre os anos de 1979 e 1986 – amarra  bem as diversas e divertidas histórias contadas com prazer e brilho  nos olhos pelas personalidades (e que turma!) elencadas acima. Ter uma grata lembrança sobre o Lira parece um ponto em comum  a todos os entrevistados. Afinal, foi lá que muitos desses artistas  deram os primeiros passos de suas carreiras. Tempos duros, de muito  trabalho, mas também de grandes descobertas e muita criatividade. E eles descobriram tudo junto, no palco do pequeno porão, no bairro  de Pinheiros, em São Paulo, transformado para abrigar o Teatro Lira Paulistana.

“Era uma catacumba. Lá aconteciam coisas que não aconteciam na superfície”, diz Luiz Tatit, o mentor do Grupo Rumo, sobre a liberdade de criação que habitava o porão do Lira. Todos eram bem recebidos. Os artistas independentes, que não tocavam nas rádios e na televisão, que não faziam música comercial. Os ‘marginais’, como chegaram a ser chamados à época. E o Grupo Rumo é um dos grandes exemplos dessa vontade de  criar e de se expressar que chegava no momento em que o regime  militar brasileiro dava claros sinais de cansaço. A Vanguarda

Paulista, capítulo importante do filme, mostra que além do Rumo,  Língua de Trapo, Premeditando o Breque (Premê), Tetê Espíndola  e Itamar Assumpção encontraram no Lira o ambiente ideal para a sua inventiva música. Menos Arrigo Barnabé, que nunca chegou a  se apresentar por lá por um simples motivo: a Banda Veneno, que o  acompanhava nos shows, não cabia no pequeno palco, como explica o documentário.

O diretor Riba de Castro, que durante todos esses anos guardou o acervo do teatro, faz questão de apresentar todas as outras crias do Lira: a gravadora – que lançou o primeiro disco de Itamar Assumpção, o clássico Beleléu, leléu, eu; a gráfica, que colocou no mercado o primeiro livro do cartunista Glauco, além de botar na rua o Jornal Lira Paulistana, que antecipou o que hoje se conhece como os guias de cultura publicados por diversos jornais e revistas.

E engana-se quem pensa que a turma do Lira ficou restrita a São Paulo. O documentário mostra que, em seus últimos anos de existência, o espaço antecipou o que iria dominar as estações de rádio do país na primeira metade de década de 80: o rock nacional.

Foi lá no porão que, ironicamente, as gravadoras foram buscar bandas como Titãs – os então garotos Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e Nando Reis aparecem em imagens de arquivo teorizando sobre o que é o sucesso – Ultraje a Rigor e Inocentes.

O documentário Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista, do diretor Riba de Castro, nos convida a vasculhar sebos, lojas de CD, registros publicados no YouTube para relembrar ou conhecer a turma que agitou a vida cultural de São Paulo nos anos 80. Salve o Lira!

A HISTÓRIA DO LIRA PAULISTA

“A felicidade do homem é uma felicidade guerreira. Viva a Rapaziada! O gênio é uma grande besteira.” (Oswald de Andrade)

A frase do escritor paulistano Oswald de Andrade, o irreverente príncipe do modernismo brasileiro, pode muito bem explicar o que norteou o surgimento e os sete anos de existência do Lira Paulistana.Em 1979, Waldir Galeano, um ex-administrador de empresas, e Wilson Souto Jr, o Gordo, um ex-estudante de engenharia e músico, idealizaram uma pequena sala de espetáculos que fosse viável para a apresentação de novos trabalhos. Com pouco dinheiro disponível, alugaram um porão de uma loja de ferragens localizado na rua Teodoro Sampaio, número 1091. Reformaram o local e criaram ali o Teatro Lira Paulistana.

“É fogo Paulista!”, espetáculo teatral musical de criação coletiva, dirigido por Mário Mazetti, foi a peça que inaugurou o Lira. Durante três meses, o espetáculo ficou em cartaz, sempre de quarta a domingo. Aos poucos, as segundas e terças-feiras ociosas do novo espaço começaram a ser ocupadas por grupos musicais que não tinham possibilidade de se apresentar nas salas convencionais existentes na cidade. Como o Lira era um teatro pequeno, barato e com uma boa infraestrutura, ele se tornou um espaço ideal para quem queria dar os primeiros passos na carreira musical. Foi assim que o Lira virou um ponto de encontro dos músicos e da nova música paulistana.

Mesmo assumindo sua vocação musical, o Teatro do Lira sempre foi múltiplo, abrigando em suas arquibancadas e na pequena semi-arena do acanhado porão as mais diversas manifestações e tendências. O Lira foi teatro, cinema, sala de exposições e palco de debates. O Lira abrigou a tudo e a todos. Tentou ser a coletânea paulistana contemporânea de qual falava o poeta paulistano Mário de Andrade no seu livro Lira Paulistana. De centro, o pequeno espaço na rua Teodoro Sampaio passou a ser o epicentro, o irradiador de cultura. A divisão musical foi reforçada com a criação de uma gravadora própria.

O primeiro disco do selo Lira Paulistana, que tinha uma parceria com a gravadora Continental, foi lançado em 1980, Beleléu, leléu, eu, do músico e compositor Itamar Assumpção. A iniciativa fez com que outros dois integrantes chegassem para reforçar a equipe do Lira: o quase filósofo Francisco Caldeira – o Chico Pardal – e um engenheiro, Plínio Chaves.

Logo em seguida, chegaram Riba de Castro, artista gráfico e produtor cultural, e o jornalista Fernando Alexandre, com projetos e ideias de um jornal que mostrasse o tamanho da diversidade cultural paulistana. Dessa maneira, estava formado o núcleo central do Lira: Gordo, Chico Pardal, Plínio Chaves, Riba de Castro e Fernando Alexandre. Mas o Lira não ficou apenas no pequeno porão. Primeiro, para abrigar a redação do jornal recém-criado, uma casa na praça Benedito Calixto recebeu uma pequena máquina impressora. Foi nessa casa também que os discos e livros que o grupo produzia eram vendidos. O local abrigou ainda um grupo de teatro do próprio Lira.

 

O Jornal Lira Paulistana foi para as ruas e junto com ele a música que era mostrada no porão da Teodoro Sampaio. Foi aí que o espaço ficou pequeno. A música do Lira invadiu praças e ruas. Festa na Praça, Música na Paulista, Música na USP, Reveillon no Bexiga, Instrumental na Praça, Verão MPB I e II, em Santos e Praia Grande. O Lira começava a sair de São Paulo.Com o sucesso dos shows e dos artistas que passavam pelo Lira, e por lá passaram nomes como Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Premê, Paulo Caruso, Tetê Espíndola, Cida Moreira, Ultraje a Rigor, Titãs, Cólera, Grupo Pau Brasil, Ratos de Porão, Jorge Mautner, Carlos Nóbrega, Tom Zé e Jards Macalé, Aracy de Almeida, entre outros, a gravadora se associou à Continental em busca de uma estrutura para uma melhor produção e distribuição dos discos.

Os tempos mudaram e o Lira passou a concorrer com novos espaços culturais que começaram a surgir pela cidade. O acordo com a gravadora Continental não rendeu o que era esperado e os grupos ligados ao Lira começam a buscar novos caminhos. O núcleo central do Lira começou, então, a se diluir. Wilson Souto Jr assumiu a direção artística da Continental e passou a se dedicar menos ao Lira. Em seguida, Fernando Alexandre saiu do grupo e foi trabalhar na Fundação Cultural de Curitiba. Logo depois, Plínio e Riba de Castro se afastaram. Chico também foi trabalhar na Continental.

O famoso teatro da Teodoro Sampaio resistiu por algum tempo ainda, passando a ser administrado por membros remanescentes, entre eles o Wilson Justino e o Eduardo Schiavone Cardoso, que trabalhava no Lira praticamente desde o seu começo. Em setembro de 1986, o Teatro Lira Paulistana fechou definitivamente as suas portas.

A VANGUARDA PAULISTA

Ser um artista independente. Atualmente, essa condição tem um ar cult. Também é uma alternativa quase vital na carreira de muitos artistas, já que, com o declínio das gravadoras e a pirataria prejudicando seus faturamentos, as companhias só investem no que gera lucro rápido e garantido. Mas houve um tempo em que ser um artista independente significava muito mais do que tentar se inserir no mercado. Significava ter liberdade de criar, de ser marginal dentro de um esquema pré-estabelecido, de ir contra o mercado. No início dos anos 80, uma turma de jovens artistas – em sua maioria estudantes de comunicação – conseguiu se estabelecer dessa maneira: à margem, sem concessões, fazendo aquilo que acreditava.

A chamada Vanguarda Paulista, que teve Arrigo Barnabé como seu maior expoente, trouxe também ao cenário musical nomes como Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Premeditando o Breque (Premê) e Língua de Trapo.

Totalmente distante do que as rádios tocavam e as gravadoras apostavam como produto comercial – a MPB tradicional reinava, com a consolidação das carreiras de grandes artistas como Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Clara Nunes, Ney Matogrosso, Simone, entre outros –, a música produzida por esses artistas encontrara na estrutura oferecida pelo Lira Paulistana o ambiente ideal para suas manifestações artísticas.

A produção dessa turma era tão plural que, mesmo todos recebendo o carimbo de Vanguarda, não é possível estabelecer uma unidade entre a música que faziam. Não era um movimento orquestrado. Era uma movimentação. E mais: era uma vanguarda que matinha uma capacidade de comunicação com o público. A música do paranaense Arrigo, por exemplo, fazia releitura de peças clássicas e ficou marcada por seus arranjos dodecafônicos e atonais. Um trabalho bastante experimental. O disco independente Clara Crocodilo, gravado com a Banda Veneno, se tornou um clássico da música popular brasileira.

Já Itamar Assumpção fazia uma mistura de samba, rock, funk e reggae. O músico lançou seu primeiro LP em 1980. Beleléu, leléu, eu – gravado com acompanhamento da banda Isca de Polícia – foi também o primeiro disco lançado pelo selo Lira Paulistana, criado para abrigar artistas e bandas que não se encaixavam – ou não se rendiam – ao esquema das gravadoras.

O Grupo Rumo, que tinha em sua formação Luiz e Paulo Tatit, Ná Ozetti, Gal Oppido, Hélio Ziskind, Akira Ueno, Ciça Tuccori, Pedro Mourão, Zecarlos Ribeiro e Geraldo Leite, trabalhava bem as melodias vocais e trazia canções quase faladas, com grande influência da música popular brasileira. Liderado por Wandi Doratiotto, o Premeditando o Breque (Premê) emplacou o maior sucesso da turma da Vanguarda. São Paulo, São Paulo, uma versão bem humorada da famosa New York, New York, virou uma marca registrada do grupo que tinha claras influências da música regional e do samba.

Por fim, o irreverente Língua de Trapo abusava do escracho em suas letras em um som que misturava pop e rock. A canção O que é isso, companheiro, lançada no primeiro LP da banda, em 1982, satirizava Fernando Gabeira, recém-chegado do exílio político, além de mostrar que uma produção independente, com personalidade artística, era possível, a turma da Vanguarda Paulista influenciou artistas surgidos nos anos 80 para cá, como, por exemplo, Zélia Duncan, Cássia Eller, Marisa Monte, Los Hermanos e Tulipa Ruiz.

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Lira Paulistana

Vamos a mais uma história que fez parte de minha adolescência e que por coincidência  a Maga Lieri cantou neste espaço que foi primordial para os artistas independentes nos anos 80. Entre 1979 e 1986, funcionou na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, São Paulo, o Teatro Lira Paulistana -nome tirado da obra homônima de Mário de Andrade, de 1946. Fundado por Wilson Souto Jr., o Gordo, o Lira passou de palco de produções alternativas – começou como teatro – a centro irradiador do que viria a se chamar Vanguarda Paulista. Durante esse período o Gordo foi aceitando sócios. O pioneiro, Chico Pardal, que ainda colabora com o Gordo, hoje dono da gravadora Atração; Plínio Chaves, já falecido, deflagrador da carreira de Ná Ozzetti; o jornalista Fernando Alexandre G. da Silva, responsável pelo Lira Paulistana, a primeira publicação a tentar emular o Time Out inglês e o Pariscope francês – as revistas semanais ainda tentam; Ribamar de Castro que, entre outros feitos, transformou o logotipo do teatro, com o perfil de São Paulo, em uma linha de neón. E fez história. Há uma década radicado na Espanha, Riba está em São Paulo para colocar o Lira “em seu devido lugar”. Detentor de um vastíssimo material sobre o teatro, Ribamar pensava em escrever a respeito do assunto quando a idéia de fazer um documentário o atropelou. Desde outubro passado, Riba percorre a cidade acompanhado pelos profissionais da Lente Viva Filmes, Fabriketta de Cinema e DCine, gravando depoimentos, buscando locais originais, desfazendo lendas e criando outras. O resultado chegou às telas no segundo semestre de 2009 e já é considerado uma revolução. O motivo é simples. Embora quase três décadas tenham se passado, não há um dia que alguma figura que pisou no palco do Lira Paulista não esteja se apresentando em algum lugar da cidade. Mesmo assim o leitor não encontra nenhuma informação sobre o Lira reunindo teatro, movimento, momento histórico, nada, seja em enciclopédias de música, publicações, o que for. Para completar, há claros indícios de que a figura de Itamar Assumpção, cantor e compositor falecido em 2003 a quem o filme é dedicado, torne-se hype nos próximos meses. Além do filme do Riba, da Caixa Preta, com sua discografia a ser lançada pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) e o DVD pelo Itaú Cultural, Itamar tornou-se a figura mais escolhida para tema de TCCs (trabalhos de conclusão de curso), teses de mestrado, doutorado, monografias e matérias de revistas. Ouvidos atentos. Ribamar de Castro é uma daquelas figuras que só a Vila Madalena do final da ditadura podia ter produzido. Ele praticamente definiu o conceito de agitador cultural. Um dos seus primeiros feitos foi projetar filmes de um apartamento nos prédios vizinhos, com as caixas de som nas janelas, para que todos pudessem assistir enquanto bebericavam. Baixinho, barba, óculos e sempre encimado por um quepe da Legião Estrangeira, ele embarcou na aventura do Teatro Lira Paulistana já definindo seu apelo visual, e sua experiência em Barcelona só o aproximou ainda mais da Benedito Calixto. Para começo de conversa, a denominação Vanguarda Paulista foi criada pela imprensa baseada no fato de Arrigo Barnabé trazer a clara e crocodilesca influência dos compositores de vanguarda do princípio do século passado. Logo, tudo o que não era MPB-bossa incluído na música pós-tropicalista de Itamar – os grupos Rumo, Premê e Língua de Trapo, no repertório de cantoras como Cida Moreira e Eliete Negreiros, de regionalistas como Passoca ou o grupo Paranga, das formações de jazz em torno do pianista Lelo Nazário -, tudo foi resumido como… vanguarda. Na verdade o assunto que dava liga a todas essas pessoas era música independente. Independente das gravadoras. Como Antonio Adolfo e seu disco sintomaticamente batizado Feito em Casa. Fora isso, aquelas pessoas não tinham nada em comum – como observou o jornalista e pesquisador Zuza Homem de Mello, “os pintores de Paris da época de Picasso também não tinham” – exceto o Lira e a proximidade da Universidade de São Paulo (USP). Mas como “toda regra etc.”, Arrigo nunca tocou no Lira e Itamar nunca estudou na USP. Mas isso é assunto para mais de metro. O fato é que o Lira já existia há um ano quando o Gordo e sua turma descobriram Itamar em um festival da Madalena. Logo Arrigo lançaria o primeiro disco independente dessa safra. Itamar passou a se apresentar no Lira e os responsáveis descobriram que se quisessem lançar um disco teriam de fundar um selo também. Assim surgiu Beleléu, Leléu, Eu, de Itamar, e o selo Lira Paulistana, hoje ambos lendários. Rumo, Premê e Língua, entre tantos outros, fizeram daquele porão minúsculo – cabiam 150 pessoas se tanto – seu lar permanente, criando a mística do Lira. Na verdade se houve grupo que surgiu no Lira, seria da geração seguinte, do chamado BRock. Os membros dos Titãs, Ira! e Ultraje a Rigor, por exemplo, eram meninos que ensaiavam à tarde no teatro desocupado. Mais assunto. Riba está entrevistando todo mundo. Os “meninos” também. E tentando desviar o assunto de música exclusivamente. Tanto que o nome da sociedade era Centro de Promoções Artísticas Lira Paulistana. As coisas aconteciam. Como lembra Laerte Fernandes de Oliveira em seu livro Em um Porão Em São Paulo (Anna Blume – 2002), quando O Homem Que Virou Suco, de João Batista de Andrade, foi premiado em Moscou havia desaparecido das telas no Brasil, sendo exibido apenas no Lira. O mural ao lado do teatro era ocupado por artistas plásticos que se revezavam a cada dois meses. A Edições Lira Paulistana tem como primeiro volume Minorias, do estreante Glauco, o cartunista. O jornal teve 12 edições e os shows do porão ganharam as praças, com patrocínio da US Top, e o País, batizados Boca no Trombone. Muita água rolou. E Ribamar está aí para filtrar e contar.